Em um único pregão, boa parte das companhias listadas na B3 passou a valer menos. No dia 26 de outubro, primeiro pregão após o segundo turno da eleição presidencial, o Ibovespa fechou em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos, a maior baixa diária desde março de 2020, com os negócios suspensos pelo circuit breaker e uma semana que terminou como a pior para a Bolsa desde o início da pandemia.
Uma queda dessa intensidade precisa ser lida além da cotação das ações, já que o valor de mercado de uma companhia aberta é a referência que acionistas, credores e potenciais sócios usam para medir quanto ela vale e quanto custa investir nela. Com a queda, essa referência muda para todos esses públicos ao mesmo tempo, ainda que a operação de cada empresa não tenha se alterado naquele dia, porque a queda reflete uma revisão das expectativas sobre juros, câmbio, política fiscal e crescimento, e são essas expectativas que passam a orientar as decisões de quem financia e investe nas companhias.
Um dos impactos mais sensíveis de um dia como esse recai sobre a captação de recursos. Uma oferta de ações planejada antes da eleição pode ter deixado de ser viável, porque, com a cotação mais baixa, a mesma emissão levanta menos recursos e exige a entrega de uma participação maior, o que aumenta a diluição dos acionistas atuais. Nessas circunstâncias, muitas companhias optam por adiar a operação, com consequências para os projetos que dependiam desses recursos.
O crédito tende a seguir a mesma direção, uma vez que a empresa que vale menos e opera num cenário mais incerto costuma ser vista pelos financiadores como um risco maior, o que se traduz em juros mais altos, prazos mais curtos ou exigência de garantias adicionais. Para companhias que já carregam endividamento relevante ou têm vencimentos concentrados nos próximos meses, esse encarecimento pode pressionar o caixa e comprometer a execução da estratégia, especialmente quando os contratos de financiamento contêm cláusulas atreladas a indicadores financeiros que se deterioram com o cenário.
Chamo atenção, ainda, para a confiança dos investidores, que não acompanha necessariamente a recuperação da cotação, porque depende do que a companhia comunica ao mercado, da coerência dessa comunicação ao longo do tempo e da forma como os riscos foram tratados antes da turbulência. Quando os investidores percebem distância entre o que a administração divulga e o que de fato acontece na empresa, passam a exigir um retorno maior para manter ou ampliar seus investimentos.
No caso das companhias abertas, a transparência é também uma obrigação legal, uma vez que a Lei das S.A. impõe aos administradores o dever de informar (art. 157) e a Resolução CVM nº 44/2021 exige a divulgação imediata de fato relevante sempre que um ato ou fato puder influir de modo ponderável na cotação ou na decisão dos investidores. O Formulário de Referência também exige a descrição dos fatores de risco a que a companhia está exposta, e, em cenários de volatilidade, a correspondência entre essa descrição e as vulnerabilidades reais do negócio passa a ser observada com mais atenção pelos investidores.
Em momentos de volatilidade, minimizar os impactos ou adiar a comunicação pode parecer o caminho mais prudente, mas essa escolha tende a comprometer a credibilidade da companhia quando os efeitos se tornam conhecidos, ao passo que uma comunicação consistente, que identifique os riscos e informe como estão sendo tratados, preserva a relação com acionistas e investidores mesmo quando as notícias não são favoráveis.
Nesse contexto, a governança corporativa contribui para essa consistência quando funciona como instrumento de gestão, e não apenas como cumprimento formal de regras. Um conselho de administração que acompanha os riscos, controles internos efetivos, uma política de gestão de riscos aplicada no dia a dia e procedimentos claros de tomada de decisão permitem identificar vulnerabilidades financeiras e operacionais antes que se materializem. Na prática, isso envolve discussões periódicas do conselho sobre a exposição da companhia a juros, câmbio e liquidez, informações confiáveis e atualizadas para fundamentar as deliberações e responsabilidades bem distribuídas entre administradores, sócios, comitês e órgãos de fiscalização.
Por isso, vale aproveitar este momento para avaliar a exposição da companhia a cenários como o atual, o que inclui identificar os projetos que dependem de captação futura e as alternativas caso as condições de mercado permaneçam desfavoráveis, medir a sensibilidade do caixa à alta dos juros e do dólar, que subiu 8,21% no mesmo pregão, e examinar a dependência de poucos clientes, setores ou fontes de recursos. Com esse mapeamento, a companhia pode estruturar respostas antes que as mudanças econômicas comprometam sua estratégia, seja revendo o cronograma de investimentos, reforçando a liquidez ou ajustando a comunicação com acionistas e investidores.
Esse acompanhamento está diretamente ligado aos deveres dos administradores, que, segundo a Lei das S.A., devem atuar com diligência (art. 153), no interesse da companhia (art. 154) e com lealdade a ela (art. 155), o que inclui supervisionar os riscos assumidos e tomar decisões fundamentadas em informações adequadas. Ressalto, porém, que a queda da Bolsa, isoladamente, não caracteriza falha de gestão, sobretudo quando decorre de fatores externos à companhia, mas reforça a importância de decisões fundamentadas e documentadas, já que a própria lei permite afastar a responsabilidade do administrador que agiu de boa-fé e visando ao interesse da companhia (art. 159, § 6º), e o registro do processo decisório é o que permite demonstrar essa atuação.
Por tudo isso, um conselho que acompanha os riscos, informações confiáveis para decidir e uma divulgação coerente com o que acontece internamente não impedem a perda de valor em um pregão como o de 26 de outubro, mas preservam a credibilidade de que a companhia vai precisar para recuperar esse valor e retomar o acesso a capital em condições adequadas quando o mercado voltar a avaliar os fundamentos de cada empresa.