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Queda de quase 14% na Bolsa: o que separa as empresas que se recuperam das que não se recuperam?

Queda de quase 14% na Bolsa

Data 04 de novembro, 2026
Categoria Governança
Dr. Marco Ruzene
Autor Dr. Marco Ruzene
Queda de quase 14% na Bolsa: o que separa as empresas que se recuperam das que não se recuperam?

O Ibovespa fechou a segunda-feira, 26 de outubro, em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos, no primeiro pregão após o resultado do segundo turno da eleição presidencial. Na sexta-feira anterior, o índice havia encerrado acima dos 205 mil pontos. Logo na abertura, a queda de 10% levou a B3 a acionar o circuit breaker e suspender as negociações por 30 minutos, o que não acontecia desde março de 2020, no início da pandemia. Depois da retomada, o índice chegou a recuar mais de 17%.

O movimento não ficou restrito às ações. O dólar comercial subiu 8,25%, a R$ 5,40, e os títulos prefixados do Tesouro Direto registraram a maior alta diária de taxas da série histórica. Diante desse cenário, o Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados e atrelados à inflação previstos para a semana.

Para as companhias listadas, a queda significa ter passado a valer menos em um único dia. Segundo Andréa Navarro, sócia do Ruzene Advogados com atuação em mercado de capitais e reestruturação, esse número tem consequências que vão muito além da carteira dos investidores. “O valor de mercado é a referência que acionistas, credores e potenciais sócios usam para medir quanto uma empresa vale e quanto custa apostar nela”, afirma.

O efeito também não é uniforme. Analistas apontam que exportadoras e empresas de commodities tendem a resistir melhor, por ganharem com o dólar mais alto, enquanto companhias endividadas e dependentes de consumo e crédito, como parte do varejo e das construtoras, ficam mais expostas.

Na avaliação de Andréa, o impacto mais sério recai sobre a captação. “Uma oferta de ações que fazia sentido na sexta pode ter deixado de fazer na segunda, porque a mesma emissão agora levanta menos recursos e dilui mais os acionistas atuais”, explica. O crédito segue na mesma direção e tende a encarecer para empresas que passaram a valer menos e operam num cenário de maior incerteza.

Há ainda a confiança dos investidores, que não volta automaticamente quando a cotação se recupera. “Ela depende do que a companhia comunica ao mercado, da coerência dessa comunicação ao longo do tempo e de como os riscos foram tratados antes da turbulência”, diz a sócia. Para companhias abertas, isso passa também pelo cumprimento das obrigações de divulgação perante a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

É nesse ponto que a governança corporativa deixa de ser exigência formal e passa a funcionar como instrumento de gestão de riscos. A 21ª edição do estudo “A Governança Corporativa e o Mercado de Capitais”, da KPMG, que analisou informações de 261 companhias abertas brasileiras, registra o avanço de conselheiros independentes e de comitês de riscos e de auditoria, mas também um percentual significativo de deficiências reportadas nos controles internos.

“Conselho atento aos riscos, informação confiável para decidir e divulgação coerente com o que acontece internamente não evitam a perda de valor num dia como segunda-feira, mas preservam a credibilidade que vai permitir recuperá-lo”, afirma Andréa.

A queda da Bolsa, isoladamente, não caracteriza falha de gestão. Ainda assim, momentos como esse reforçam a importância de decisões fundamentadas e documentadas, em linha com os deveres de diligência e lealdade que a Lei das S.A. atribui aos administradores.